quinta-feira, fevereiro 08, 2007

MONÓLOGO EM LÁ MENOR
Acendo um cigarro. Olho a rua deserta. Esboço um sorriso para mim. Uma gargalhada ecoa neste espaço onde me encontro.
A noite tem destas coisas. Todos temos a nossa noite, e decidi que esta será mais uma das minhas já muitas noites. Por isso, de janela e porta da rua aberta, vou dedilhando o teclado sem me aperceber do escrito, ou, se calhar, não lendo, porque o sorriso não vai embora, nem eu quero que ele vá. Afinal, nada como sorrir, gargalhar, e ter a noite como amante.
Mentalmente desenho, em tom amarelado, (por acaso côr do tafetá por mim utilizado num pseudo cenário, coreografia para actores e público imaginários, que me deliciam com a sua actuação, tendo a vantagem de não me cobrarem caché, nem tão pouco me obrigarem, á emissão de cheques carecas, passatempo a que me dedico com esmero, pois só assim o Ministro da Economia irá equilibrar o déficete orçamental, já que o outro nunca mais se endireita.), um lindo malmequer onde, além das abelhas se irem deleitar em sofrego sugar de nectar, também me irei deliciar arrancando meigamente folha por folha, contando... Bem me quer...(isto não pode ser lido por alguém ao serviço da Quercus), nem tal comportamento terei, dado ser só mentalmente o efectuar tal contagem. Lá dentro, num outro recanto, o barulho do pinga, pinga da torneira incomoda-me, pois não a consigo fechar. Ora como para grandes males grandes remédios, faço aqui uma pausa, e vou de imediato solucionar a questão, socorrendo duma ideia genial ora mesmo ocorrida. O que me incomoda? O barulho. Então a solução é simples, agarro numa esponja de dar banho ao Neco, (meu cão), coloco debaixo da torneira, e já não irá fazer barulho. Muito simples...
Pronto, assunto resolvido, agora sim, estou muito mais confortável, então já posso dialogar para com os meus botões. Não vou imitar o Malhadinhas nem coisa que o valha, sim, isto de imitações já me chega a dos chicolatis que como de marca Suissa, e modestamente fabricados para os lados de Oeiras, em elaboração caseira, como sempre é conveniente esclarecer no rótulo prateado, que os envolve, sob pena de ser considerado contrafacção, (isto faz-me recordar o meu nascimento, pois segundo dizem, na altura aminha mãe tinha ido ás compras ao Jumbo, e, o meu pai, ao ver-me disse... mas que contrafacção logo nesta altura do mês...), coitado do meu pai, (estou a sorrir para ti) tinha coisas muito boas, uma bicicleta pasteleira que era o orgulho lá da viela, um cinto de cabedal, que era a delicia das minhas costas, (não era bem nas costas, só um cadito mais abaixo), e, vejam só, o delirio da petizada ao ver como fácilmente aprendi a dançar o Twist em três tempos e quatro passos. Penso que por isso eu sempre disse sero meu destino a dança. E de facto foi. Danço até no arame quando vou pagar as contas da água (já não faz barulho), do telefone, da luz e algumas vezes do gáz que compro fiado na merceraria aqui do lado...
Eu fui, e sou (ora essa), o Habeas Corpus da família, sim, não se estajam a rir, aos 18 anos já tinha a 4ª Classe, feito pouco usual, que pensam? Além doutras aptidões descobertas mais tarde, e que só devido ao adiantado da hora estrelar não irei relatar agora, fui a Nau Catrineta de toda família. Ainda tive uma certa tendência para ser a Arca de Noe, mas achei que a barriga me fica mal e desisti da ideia...
Este monólogo tem de ficar por aqui. Já é noite e tarde...

Como sempre, depois do dia vem a noite... Ou é a noite que vem depois do dia?

A SAGA DOS TEUS MEDOS
De longe observo a maneira como cuidadosamente escolhes o banco do jardim onde te irás sentar. Olhas o arvoredo, (não tanto quanto gostarias), buscas com esse mesmo olhar as flores amarelas, tuas preferidas, (de sonhos coreagrafados sobre os quais me irás falar um dia), nem te das conta, pois está sol, dos estragos causados pelas intempéries, (cacimba que queima, frio que enregela), com o banear de cabeça vês tudo em teu redor, olhos húmidos fustigados pela leve brisa que se faz sentir.
Reparas então no vendedor de castanhas lá ao fundo. Estás a ver? Segues os seus movimentos quase maquinais no retalhar das mesmas, com pequenos golpes de canivete, e como as põe dentro do assador de zinco e coloca sobre o fogareiro embutido na carrinho, artesanal, de madeira. A curiosidade e o gosto pelo conhecimento, aprendizagem de tudo, fazem com que tuas pernas, pachorrentas, saboreando o momento de devaneio a que te devotas, te conduzam em passos seguros e marcados, até junto do homem das castanhas.
Páras. O fumo branco que sai do assador trás algumas recordações. Eu, distante, tento passar para além do teu pensamento sem o conseguir. Tu, nostálgicamente, talvez por falta do amarelo das flores, esboças um leve sorriso e contente ficas com o branco das castanhas por fora. Olhas, fixamente, o amarelo do seu interior. Continuas parada. Um pequeno vinco se vai formando sobre a tua fronte. Ligeiro estremecimento te invade. Não é do frio. Sentes-te desfalecer um pouco.
Uma nuvem passa pela tua cabeça, (não por cima),e, devagar, te afastas...
Sentada no banco, já refeita do pequeno precalço, vendo a gente que passa perto de ti, te olham, (estanhamente?), e seguem sem um sorriso. Ficas triste. Procuras um cigarro, que acendes, e com gestos impensados, vais fumando, olhando o fumo, seguindo-o, esperando, (pensas), o mesmo se dirija em direcção ao mar. Sim, o mar que sabes seguir sempre em direcção aquilo que mais amas. Então, lentamente, recostas-te no banco com um pensamento balbuciado entre dentes. "Detesto os Domingos".
Semi-cerras os olhos, deixando que o Sol te acaricie o rosto. Por agora não queres olhar mais as pessoas. Aconchegas o cachecol no pescoço, enrolas nele as mãos, entregas-te aos teus pensamentos...

sábado, fevereiro 03, 2007

NINFANDO OU ESPERANDO
Com uma ruga, de expressão, sobre o sobrolho direito, (que coço com as unhas ainda por aparar), olho com desespero o relógio na minha frente cujo ponteiro grande mais parece um policía sinaleiro na rotunda frente ao mercado de Alcantara, saltindo em estrebuchar de soluços para junto do número indicador de serem 21,00 horas.
Hoje é Segunda feira, prevejo ou antevejo (nem sei até se vejo alguma coisa)mas sinto-me como estando no corredor da morte (salvo seja), qual condenado a quem é concedido o último desejo. Não foi um cigarro que pedi, não. Nem tão pouco a já terrificante companhia dos ratos que me afagam. Afinal, sirvo de cobaia para estudos da ciência, (este é o consolo que me resta), afim de se averiguar e testar até onde vai o auto-sofrimento humano, após 2 longas e interminaveis horas de sujeição aos tão falados "gafanhotos" expelidos de quando em vez, (minuto a minuto), pelos lábios com retoque de alguém na minha frente, teimosamente palitando os dentes com um clips, não sem que antes o tivesse utilizado para catar o bixinho do ouvido.
São pulseiras de missangas, colares de madrepérola, bergantim feito em arame adornado com sementes de sálamo, (castanha de caju também não ficaria mal), tudo isto aliado ao avassalador cheiro a brinlhantina, comprada nos Armazéns da Betesga. Ia, eu dizendo, ou pelo menos tentando descrever, o sofoco, aflição e até um certo devaneio ou perca de sentido, perante tal assombração, (que não o é...), donde jamais alguém conseguiu resistir em tempo superior ás 3 horas consequtivas de matraquear em tom de Dó Menor... Imaginem tudo isto espalhado pelos sítos mais inconvenientes, incluindo a mesa de anatomia.
Olho carinhosamente todos os objectos. É com um misto de pena e ternura que lhes paço com a mão, tentando transmitir-lhes todo o meu apoio para o sacrificio a que se irão sugeitar...
Apressademente bebo um copo de água, e preparo-me qual tubo de ensaio...
Eis-me aqui...

Regressando. Sem rede nem temor.

Após uma considerável ausência, regresso energica e moralmente recuperado.
A escrita, as palavras transmitidas, os gestos, até
os próprios actos, continuam a ser como eram, sem filtros, sem temor, sem rede...
Apenas uma pequena alteração. Agora o trapézio está colocado mais no alto!