MONÓLOGO EM LÁ MENOR
Acendo um cigarro. Olho a rua deserta. Esboço um sorriso para mim. Uma gargalhada ecoa neste espaço onde me encontro.
A noite tem destas coisas. Todos temos a nossa noite, e decidi que esta será mais uma das minhas já muitas noites. Por isso, de janela e porta da rua aberta, vou dedilhando o teclado sem me aperceber do escrito, ou, se calhar, não lendo, porque o sorriso não vai embora, nem eu quero que ele vá. Afinal, nada como sorrir, gargalhar, e ter a noite como amante.
Mentalmente desenho, em tom amarelado, (por acaso côr do tafetá por mim utilizado num pseudo cenário, coreografia para actores e público imaginários, que me deliciam com a sua actuação, tendo a vantagem de não me cobrarem caché, nem tão pouco me obrigarem, á emissão de cheques carecas, passatempo a que me dedico com esmero, pois só assim o Ministro da Economia irá equilibrar o déficete orçamental, já que o outro nunca mais se endireita.), um lindo malmequer onde, além das abelhas se irem deleitar em sofrego sugar de nectar, também me irei deliciar arrancando meigamente folha por folha, contando... Bem me quer...(isto não pode ser lido por alguém ao serviço da Quercus), nem tal comportamento terei, dado ser só mentalmente o efectuar tal contagem. Lá dentro, num outro recanto, o barulho do pinga, pinga da torneira incomoda-me, pois não a consigo fechar. Ora como para grandes males grandes remédios, faço aqui uma pausa, e vou de imediato solucionar a questão, socorrendo duma ideia genial ora mesmo ocorrida. O que me incomoda? O barulho. Então a solução é simples, agarro numa esponja de dar banho ao Neco, (meu cão), coloco debaixo da torneira, e já não irá fazer barulho. Muito simples...
Pronto, assunto resolvido, agora sim, estou muito mais confortável, então já posso dialogar para com os meus botões. Não vou imitar o Malhadinhas nem coisa que o valha, sim, isto de imitações já me chega a dos chicolatis que como de marca Suissa, e modestamente fabricados para os lados de Oeiras, em elaboração caseira, como sempre é conveniente esclarecer no rótulo prateado, que os envolve, sob pena de ser considerado contrafacção, (isto faz-me recordar o meu nascimento, pois segundo dizem, na altura aminha mãe tinha ido ás compras ao Jumbo, e, o meu pai, ao ver-me disse... mas que contrafacção logo nesta altura do mês...), coitado do meu pai, (estou a sorrir para ti) tinha coisas muito boas, uma bicicleta pasteleira que era o orgulho lá da viela, um cinto de cabedal, que era a delicia das minhas costas, (não era bem nas costas, só um cadito mais abaixo), e, vejam só, o delirio da petizada ao ver como fácilmente aprendi a dançar o Twist em três tempos e quatro passos. Penso que por isso eu sempre disse sero meu destino a dança. E de facto foi. Danço até no arame quando vou pagar as contas da água (já não faz barulho), do telefone, da luz e algumas vezes do gáz que compro fiado na merceraria aqui do lado...
Eu fui, e sou (ora essa), o Habeas Corpus da família, sim, não se estajam a rir, aos 18 anos já tinha a 4ª Classe, feito pouco usual, que pensam? Além doutras aptidões descobertas mais tarde, e que só devido ao adiantado da hora estrelar não irei relatar agora, fui a Nau Catrineta de toda família. Ainda tive uma certa tendência para ser a Arca de Noe, mas achei que a barriga me fica mal e desisti da ideia...
Este monólogo tem de ficar por aqui. Já é noite e tarde...
Como sempre, depois do dia vem a noite... Ou é a noite que vem depois do dia?

1 Comments:
delicioso este teu texto
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