quinta-feira, abril 19, 2007

TEMPO
Há quanto tempo meus dedos não dedilhavam este teclado sobre o qual em lento gemido se arrastam.
Há quanto tempo meus olhos não conseguiam distinguir as letras
negras com as quais formavam palavras direcionadas para meu
cérebro aninhado em alegre saboreio de vida.
Há quanto tempo meus finos lábios não alteravam a sua posição
de repouso no esboçar dum sorriso ainda que ténue.
Há quanto tempo em mim não entrava o receio de erros ortográficos
na forma escrita já que, na falada, por mudo andar, não existe.
Há quanto tempo meus braços não se estendem num abraço porque
o abismo cavado é o significativo espaço de queda no vácuo, só!
Há quanto tempo minha garganta espera para que dela brote o grito
amortecido pela corda tecida no meu próprio tear do desespero entrelaçada por linhas ou fio de esperança guardada.
Há quanto tempo olho em minha volta e de mim não vejo nada para
além dumas sombras de minhas mãos estentidas.
Há quanto tempo meu ouvidos esperam para escutar o múrmurio,
balbuciado, dum obrigado esquecido, por mim nunca pedido, mas aguardado.
Há quanto tempo em meu leito de revolta, me envolvo nos lençóis de
recordações, sem conseguir dormir, pois não quero adormecer com elas, e minha cabeça em duelo constante na almofada da tristeza, parece campear sem rumo nem velas.
Há quanto tempo o tempo vai passando por mim sem me dizer bom dia.
Há quanto tempo minha mão estendida assim está, não pedinte, sim
clamando, num sussurro interno, que vejam nela nada existir. Sómente traços bem vincados do querer segurar o vento da vida minha, em sua teimosa quietude.
Há quanto tempo, e com carinho, afago os meus trabalhos feitos em
linha, e dos pompons, julgo, penso ou quero, copiar alguém que com rosas fez milagre.
Há quanto tempo espero o bater na minha porta, da senhora promessa
que jamais passou disso mesmo, cuja ausência me remeteu para o espaço onde me encontro...
Há quanto tempo me arrasto no pensamento amaro da realidade
brutante dos meus trabalhos, que de linha são, não conseguirem colocar sobre a minha mesa o pão, ainda que eu próprio o saiba fazer.

Há quanto tempo conto todas as peças expostas e olhadas...
Há quanto tempo tento escrever todo este vazio de palavras...
...Há muito tempo
Que tempo???