O poço, a água e ele.
Na pedra do poial, ladeando uma porta com cortina descaída,
senta-se, rosto entre as mãos, olhando com olhar cansado e
triste, o verde amarelecido das batateiras.
Um ligeiro, ténue mesmo, esboço de soluço, percorre-lhe a
garganta, provocando um sufocar impeditivo do fluír normal
da saliva, lubrificante preciso para as suas cordas vocais, que,
em contracções naturais, emitem, ou formam, sons com os
quais surgirá a fonia "obrigado".
Esfrega um pouco a testa, suada pelo esforço dispendido na
refrega contra as ervas danosas, sentindo então, sulcos já
vincados e surgidos, (aparecidos), num ápice, entre meses do
árduo labor, a que não estava habituado, mas abraçado e
enfrentado com a determinação do querer, ainda que atitude
assim mantida, seja mãe, (ou madrasta), de erupções cutaneas,
algumas dolorosas, campeando nas palmas das mãos, até então
de pele fina, por entre as quais se deleita, num repassar lan-
guido, luxuriante até, a madeira torneada que forma os cabos
da enxada, ancinho e outros utensilios aptos (adaptados
alguns), no revolver (trabalhar) duma terra, (terreno) que,
não lhe pertencendo, ao seu cuidado ficou, e á qual sózinho,
se dedica.
Pensa em como gostaria de semear e plantar mais, mas não tem
sementes nem plantas. A forma de as obter, de momento, não
está ao seu alcance. Terá de esperar.
Para a semana, talvez no dia seguinte, (amanhã), quem sabe as
formigas, no seu carreiro, trarão com elas pequenos bagos, sementes...
Ao fundo, distante, avista o poço de onde poderá retirar a água
tão necessária para regar (alimentar) as plantas, a terra, já
ressequida pelo calôr feito sentir nestes dias, tornando viçoso
e produtivo todo aquele imenso espaço, sem esquecer as
sequiosas laranjeiras, romanzeiras, marmeleiros e outras
pequenas, em desenvolvimento, árvores de fruto.
Um pequeno motor de rega! Sim, é, tem sido, o seu sonho de
muitas noites.
Imagina-o colocado sobre um suporte, por ele construido, junto
ao poço, ligando a mangueira por onde a água irá correr ate ás
leiras plantadas e semeadas, vendo o sorriso agradecido da
terra ao sentir-se agraciada pela frescura recebida e humidade
mantida.
Mais instrumentos, (apetrechos), de trabalho fazem falta, pensa,
num sussurrar, interior, envergonhado, (uma prece talvez), como
seria bom ter tudo, (não muito), para com um sorriso, assobian-
do até, lavrar, arar, aquela terra, assistindo depois ao florescer,
verde (não amarelado), das sementes e plantas nela posta.
A tarde finda. Leva a mão ao bolso, tira um lenço amarrotado,
A tarde finda. Leva a mão ao bolso, tira um lenço amarrotado,
limpa a testa, o nariz, os olhos.
Levanta-se. Sente o corpo dorido.
Devagar ergue a cortina da porta...
Entrem. Diz!

1 Comments:
boca seca...nó na garganta...tenho demais e não tenho nada
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